sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Máximo respeito

Em latim, secundum; em inglês, respect; em espanhol, respeto; em alemão, respekt; em grego, σεβασμός; em italiano, rispetto; em búlgaro, отношение; em filipino, paggalang; em ucraniano, повага; em persa, احترام. Respeito: substantivo masculino; 1. ato ou efeito de respeitar; 2. consideração, deferência, reverência. Ou simplesmente esta imagem.

Demonstrando imenso respeito a Falcão, iranianos erguem e reverenciam o craque

















Pela primeira vez, o Brasil foi eliminado antes das semifinais da Copa do Mundo de Futsal. Na última quarta-feira (21), na Colômbia, nossa seleção foi derrotada nos pênaltis pelo Irã, após empate em 4x4 no tempo normal, em partida válida pelas oitavas de final da disputa. O jogo marcou a despedida do craque Falcão em mundiais.

O atleta de 39 anos encerrou sua história na Copa do Mundo de Futsal como o maior artilheiro da competição. Falcão chegou aos 48 gols no torneio, ultrapassando o também brasileiro Manoel Tobias, que havia marcado 43. Além dos três gols do ala na partida que culminou com a eliminação do Brasil, uma imagem chamou a atenção do público.

Falcão desolado, enquanto, ao fundo, iranianos comemoram classificação às quartas














Em meio à festa pela classificação às quartas de final da disputa, a equipe do Irã demonstrou um imenso respeito ao camisa 12 da seleção brasileira. Após um abraço do técnico iraniano em Falcão, os classificados à próxima fase tiveram a frieza de parar a comemoração para reverenciar o craque. Os iranianos ergueram e jogaram Falcão ao alto, num claro sinal de respeito e agradecimento ao ala.

Dono de inúmeros prêmios pela seleção brasileira, por clubes e individuais, Falcão não conquistou seu terceiro mundial, mas saiu de quadra como um verdadeiro campeão. Voou alto nos braços dos iranianos, que, em persa, não conseguiriam agradecê-lo pela honra de tê-lo enfrentado e por terem aprendido um pouco com quem sabe muito e ainda tem muito a ensinar nas quatro linhas.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Dias de luta, dias de glória

Por trás da glória pelas medalhas conquistadas por Rafaela Silva, Robson Conceição, Thiago Braz e outros medalhistas estão histórias de luta e superação que só chegam ao nosso conhecimento após o êxito desses atletas durante as Olimpíadas. Histórias que talvez pudessem ser evitadas se não nos interessássemos por judô, boxe e salto com vara apenas de quatro em quatro anos.

E além de nos interessarmos somente nesse período, exigimos que esses e outros esportes nos deem medalhas, não importa o quão nossos atletas tenham sofrido para estar ali ou que os adversários sejam potências olímpicas e nomes certos no pódio. Mesmo sabendo da importância de uma conquista olímpica para o país e o atleta, principalmente, não investimos nessas modalidades.

Nosso primeiro ouro na Rio 2016 veio de Rafaela Silva. A judoca negra, pobre e Silva que é a cara do Brasil. A menina da Cidade de Deus que, há quatro anos, na Olimpíada de Londres, foi desclassificada após a tentativa de um golpe irregular logo em sua estreia. Sua derrota foi seguida de comentários racistas e ignorantes direcionados à sua pessoa nas redes sociais.








Rafaela sentiu o golpe e ficou abalada, precisando ser convencida a voltar a treinar. Mas após muita dedicação e garra, a “macaca que não deveria estar nas Olimpíadas e sim na jaula” (sim, essa foi uma das barbáries que a judoca foi obrigada a ler em seu twitter), deu a volta por cima e se tornou campeã olímpica de judô, fazendo questão de lembrar a todos que “o macaco que tinha que estar na jaula em Londres, hoje é campeão olímpico em casa”.

Judoca Rafaela Silva exibe com orgulho seu ouro olímpico conquistado na Rio 2016
















Robson Conceição se tornou o primeiro brasileiro campeão olímpico de boxe ao vencer o francês Sofine Oumiha por decisão unânime (3x0) dos juízes. O pugilista de Salvador que viu no esporte a chance de aprimorar seus golpes para brigar durante o carnaval baiano, passou por duras decepções em Olimpíadas anteriores. Nos Jogos de Pequim 2008 e Londres 2012, foi eliminado logo nas primeiras lutas. Mas antes que o juiz encerrasse a contagem regressiva de sua carreira, Robson se levantou e determinado, chegou ao topo do esporte, se tornando o maior boxeador olímpico do Brasil.

Thiago Braz, o menino que, de mochila nas costas, ia para o portão esperar para que sua mãe voltasse para lhe buscar, hoje carrega algo valioso em suas bagagens: o inédito ouro olímpico no salto com vara. Criado pelos avós paternos, em Marília, começou no atletismo aos treze anos graças ao tio Fabiano Braz, que foi decatleta. Um ano depois, representou a cidade nos Jogos Regionais. Ou melhor, representaria, caso não tivessem esquecido de inscrevê-lo na competição.

Após superar a falta de varas para treinar no interior de São Paulo, o atleta se mudou para Bragança Paulista e chegou a dormir no chão do alojamento. Aos quinze anos, conquistou o bronze sul-americano juvenil e aos dezoito, já quebrava recordes e deixava de ser promessa para se tornar realidade no esporte. Um casamento, uma fratura na mão e uma mudança para a Itália depois, Thiago chegou ao ápice na modalide e pretende alçar vôos ainda mais altos.

Ainda no ar, Thiago Braz já comemora histórico ouro olímpico após saltar 6,03m
















Apesar de todas as dificuldades, esses e outros atletas como os canoístas Isaquias Queiroz e Erlon Souza e as velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze mostraram ao Brasil que o país do futebol também pode ser o país da canoagem ou o país da vela. Após muitos dias de luta, esses atletas viveram dias de glória nas Olimpíadas, com as medalhas de ouro, prata e bronze no peito. Mas o sonho, do qual Robson não quer acordar, acaba no momento em que a Rio 2016 chega ao fim e os campeões se lembram que terão mais 1460 dias de luta para que possam ter a chance de alcançar os desejados dias de glória em Tóquio 2020.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Para o jornalismo esportivo brasileiro, 7x1 foi pouco

“Lá vêm eles de novo”, “olha só que absurdo”, “virou passeio” e “gol da Alemanha”. Nosso coração até bate (sic) quando ouvimos essas frases. Neste mês, comemoramos o aniversário de dois anos do maior vexame da história do futebol brasileiro. Desde o fatídico 8 de julho de 2014, expressões como as citadas acima, passaram a fazer parte do nosso vocabulário. O país do futebol passou a ser conhecido como o país do 7x1.


E nosso jornalismo esportivo, claro, fez graça da nossa desgraça. No dia seguinte à partida, praticamente todos os sites esportivos estampavam matérias do tipo “Veja os melhores memes da derrota histórica do Brasil” e outras. Na mídia impressa, as capas do dia 9 de julho tinham, em sua maioria, um sentimento de revolta, mas ainda assim, era possível perceber alguns trocadilhos sutis.

No ano passado, no primeiro aniversário do 7x1, o twitter foi o local escolhido pela Fox Sports e pelo Esporte Interativo para “reprisar em tempo real” o jogo. A cada gol da Alemanha, mais e mais curtidas, rt’s e seguidores. Os canais “mitaram”, como diriam os torcedores do ~~meu real~~ e do ~~meu napoli~~. A essa altura, nossa imprensa já tinha marcado diversos gols contra e o 7x1 já havia se transformado numa goleada inimaginável.

























Na mídia esportiva, pouco se viu (e se vê) a respeito dos fatores que levaram ao inacreditável placar elástico do Mineirão. Não houve discussão sobre os verdadeiros motivos da goleada, sobre como chegamos àquele episódio. Dois anos depois, nosso jornalismo segue fazendo piada do capítulo mais triste da história do nosso futebol.

Passaram-se dois anos e todo dia é um 7x1 diferente. Fomos eliminados pelo Peru na Copa América, em junho. Sim, o Peru! É mole?! (sem trocadilhos por favor). Quantos 7x1 serão necessários para reformularmos nosso futebol? Quantos novos vexames? Quantas manchetes engraçadinhas? Por enquanto, seguimos com o Bom Senso e o senso comum de que 7x1 foi pouco!

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Os abutres da vida real

O filme “Repórteres de Guerra”, dirigido por Steven Silver, é baseado no livro “The Bang Bang Club”, escrito por João Silva e Greg Marinovich, que, ao lado de Kevin Carter e Ken Osterbroek, são retratados no longa. “Repórteres de Guerra”, que pode ser encontrado no YouTube, conta a história dos quatro fotojornalistas que cobrem a guerra civil na África do Sul, no início dos anos 90, à época sob o regime do Apartheid.

As personagens principais têm o “simples” trabalho de fotografar os conflitos e vender as fotos para um determinado jornal local. Mas é realmente possível fotografar alguém morrendo ou que acabara de morrer e ficar indiferente a tal fato? Os conflitos internos pelos quais passam os fotógrafos, principalmente Kevin e Greg, são retratados na história, que tem a duração aproximada de 110 minutos.


"Tocha Humana", foto que rendeu a Greg o Pulitzer de 1991


À primeira impressão, Kevin Carter, interpretado por Taylor Kitsch, gosta de sair, se divertir com os amigos e aparenta ser bem feliz. Mas a partir do momento em que o seu vício em drogas o prejudica no trabalho, fica claro que ele precisa de ajuda. O vício em entorpecentes pode ser considerado uma válvula de escape de Carter, que, apesar de acostumado a fotografar “cenas fortes”, não se acostumou a conviver com tais memórias.

A triste situação do fotojornalista é explícita a todos logo após Kevin ganhar o Prêmio Pulitzer. Sua foto, intitulada “O Abutre”, em que a ave observa uma criança sudanesa prestes a morrer de fome, o trouxe reconhecimento mundial. Mas também lhe trouxe tristeza, precedida por diversas dúvidas.

A mídia passou a questioná-lo a respeito desua obra. Perguntas como “Você ajudou a criança?” “O que aconteceu com ela apósa fotografia?” “Ela ainda está viva?” o deixavam cada vez mais confuso. O próprio autor da foto teria afirmado que “o homem ajustando suas lentes para capturar o enquadramento exato daquele sofrimento poderia muito bem ser um predador, outro urubu na cena”.


Cheio de dívidas, sem dinheiro algum, sozinho no carro e fazendo uma série de questionamentos sobre sua vida, Carter se suicida. Em sua carta de despedida, relata o desejo de ter a sorte de se encontrar com o amigo Ken Osterbroek, morto há pouco tempo em um dos conflitos da África do Sul.

Além da questão racial, citada por um personagem, que acusa os fotojornalistas (brancos) de ganharem dinheiro fotografando o sangue dos negros, a ética jornalística também é bastante questionada. Como saber o momento certo de fotografar? Como saber o momento de parar? Até que ponto o fotógrafo deve continuar com seu trabalho “sujo”?

Essas e outras perguntas dificilmente serão respondidas. Certo é que, enquanto não encontramos tais respostas, mais questionamentos do tipo surgirão. Paralelamente, à medida em que as dúvidas vão surgindo, mais e mais abutres seguem se alimentando da carniça humana...

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Leicester campeão: GOSTAMOS (pontos corridos: NÃO GOSTAMOS)


É isso mesmo, amigo. O jogo é entre dois times e o grande interessado na partida é uma terceira equipe. No dia anterior, o Leicester havia empatado com o Manchester United e para ser campeão, precisava que o Tottenham não vencesse o Chelsea na segunda. Essa é a famosa ~~era dos pontos corridos~~. A fórmula que, além de privilegiar os clubes com maior poder aquisitivo, faz com que a torcida tenha que esperar 24 horas para soltar o grito de campeão da garganta.

Defensores dos pontos corridos dizem que o sistema é mais justo e privilegia o time mais regular da competição, o que aconteceu com os Foxes. Mas cá entre nós, as chances da equipe vencer a competição novamente são mínimas, quase impossíveis. Entretanto, além de ter derrotado diversos Golias nos pontos corridos, outros ingredientes abrilhantaram ainda mais a campanha do clube na temporada 2015/2016. Confira:

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS





















Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS


Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Pontos corridos: NÃO GOSTAMOS

Por esses e outros fatores, o título foi comemorado não só pelos torcedores do Leicester, como pelos amantes do futebol em todo canto do mundo. Por último, mas não menos importante, caso ainda não tenha ficado explícito: pontos corridos: NÃO GOSTAMOS.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O paradoxo do pretérito imperfeito complexo com a teoria da relatividade da music very good e porreta dos Mamonas Assassinas

Há 20 anos, um acidente aéreo interrompia a meteórica e promissora carreira de cinco jovens de Guarulhos, São Paulo. No dia 2 de março de 1996, os jovens Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec e os irmãos Samuel e Sérgio Reoli, deixaram de apresentar a “music very good e porreta” dos Mamonas Assassinas pelo país. A tragédia vitimou também o piloto e o copiloto do avião, além do roadie e do segurança da banda.

O primeiro e único álbum do grupo chegou às lojas em 23 de junho de 1995. Rapidamente o punk rock, com influências de pagode, sertanejo, brega e outros estilos chegou aos quatro cantos do país e tornou os jovens conhecidos nacionalmente. Intitulado “Mamonas Assassinas”, o disco vendeu quase 3 milhões de cópias em menos de um ano.


Único álbum do grupo vendeu quase 3 milhões de cópias em menos de um ano


















As músicas, cheias de duplo sentido e palavrões, também vinham carregadas de críticas sociais, como podemos observar em “1406” e “Chopis Centis”. Ou ainda em “Robocop Gay”, mais precisamente no trecho “ontem, eu era católico, hoje, eu sou um gay” em que o grupo questiona a relação entre a Igreja e a homossexualidade. Mas isso é assunto pra outra hora...

Agora, o importante é entender o que os Mamonas queriam dizer com “um paradoxo do pretérito imperfeito complexo com a teoria da relatividade”. Primeiramente, levemos em consideração que o pretérito imperfeito “exprime ações que dão a ideia de não estarem concluídas no passado”. A teoria da relatividade, segundo Einstein, afirma que tempo e espaço são relativos.

Ou seja, a curta carreira dos Mamonas não acabou naquele 2 de março de 1996. Ainda hoje, o único disco da banda figura entre os 10 mais vendidos no Brasil, além de ser o que mais vendeu em menor tempo (recorde mundial). Músicos famosos fizeram referências à banda em suas letras. Lenine, em “Todas Elas Juntas Num Só Ser” e Gabriel o Pensador, em “Festa da Música Tupiniquim” são dois exemplos. Clubes de futebol parodiam “Pelados em Santos” e até escolas de samba já homenagearam os jovens de Guarulhos, levando-os como tema central à avenida.

Por essas e outras, Mamonas, “vocês não sabem como parte um coração” não poder vê-los mais aos domingos no Faustão. “Vocês não sabem como é frustrante” saber que poderiam e iriam mais adiante. “Vocês não sabem como eu fico chateado” saber que o que nos resta agora é apenas um legado...

Ouça "Mamonas Assassinas", de 1995:


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O mundo não anda chato, a publicidade é que anda (e sempre andou) preconceituosa

Após quase uma década, a Pepsi trouxe de volta os famosos limões falantes, que não apareciam em um comercial na televisão desde 2007. Na nova campanha publicitária, criada pela agência AlmapBBDO, Bruno Mazzeo e Lúcio Mauro Filho são os dubladores dos limões novamente. A propaganda, veiculada na TV e na internet, questiona “um mundo cheio de chatices, cheio de ‘não pode isso, não pode aquilo’”.


Talvez a Pepsi tenha razão. O racismo, o machismo e a homofobia deixaram o “mundo chato”. Talvez o negro, a mulher e o gay devessem continuar na senzala, na cozinha e no armário, respectivamente; para continuarmos vivendo em paz (afinal, antes do conhecimento desses termos, o mundo era perfeito). Talvez o “mimimi” desses grupos não tenha sentido. Talvez. Se estivéssemos em 1812. Talvez...


Arte do chargista Matheus Ribs                                                                               













Apesar de estarmos em 2016 e essas minorias terem cada vez mais voz, não apenas na internet, o preconceito ainda continua presente na publicidade. Seja ele de raça, gênero, opção sexual ou qualquer outro. O machismo, quesito indispensável em propagandas de cerveja, é veiculado em praticamente 100% das campanhas publicitárias de tal produto. Do “Vai, Verão” e “Vem, Verão”, da Itaipava ao “Esqueci o ‘não’ em casa”, da Skol. Todas elas têm como foco a objetificação da mulher.

A Pepsi, com “o mundo anda chato”, desmerece a luta de negros, mulheres, gays e outras minorias, que, diariamente, combatem o preconceito. A marca não entende que “agora, imagina se a gente fosse ligar para o que falam da gente!?” afeta todos esses grupos que nunca tiveram voz em nossa sociedade e os força a acreditar que devam aceitar calados tudo o que lhes é dito.


Em um mundo de Gentilis e Aquele Que Não Deve Ser Nomeados, pouca coisa tem nos surpreendido hoje em dia, é verdade. A maioria é que se surpreende ao fazer um comentário racista, machista ou homofóbico e logo ser retrucado, graças ao “mundo chato”. Mundo esse, que não anda chato. Ao contrário da publicidade, que anda e sempre andou preconceituosa.