“Lá vêm eles de
novo”, “olha só que absurdo”, “virou passeio” e “gol da Alemanha”. Nosso
coração até bate (sic) quando ouvimos essas frases. Neste mês, comemoramos o
aniversário de dois anos do maior vexame da história do futebol brasileiro.
Desde o fatídico 8 de julho de 2014, expressões como as citadas acima, passaram a fazer parte do
nosso vocabulário. O país do futebol passou a ser conhecido como o país do
7x1.
No
ano passado, no primeiro aniversário do 7x1, o twitter foi o local escolhido
pela Fox Sports e pelo Esporte Interativo para “reprisar em tempo real” o jogo.
A cada gol da Alemanha, mais e mais curtidas, rt’s e seguidores. Os canais “mitaram”,
como diriam os torcedores do ~~meu real~~ e do ~~meu napoli~~. A essa altura,
nossa imprensa já tinha marcado diversos gols contra e o 7x1 já havia se transformado numa
goleada inimaginável.
Na mídia esportiva, pouco
se viu (e se vê) a respeito dos fatores que levaram ao inacreditável placar
elástico do Mineirão. Não houve discussão sobre os verdadeiros motivos da
goleada, sobre como chegamos àquele episódio. Dois
anos depois, nosso jornalismo segue fazendo piada do capítulo mais triste
da história do nosso futebol.
Passaram-se dois anos
e todo dia é um 7x1 diferente. Fomos eliminados pelo Peru na Copa América, em
junho. Sim, o Peru! É mole?! (sem trocadilhos por favor). Quantos 7x1 serão
necessários para reformularmos nosso futebol? Quantos novos vexames? Quantas manchetes
engraçadinhas? Por enquanto, seguimos com o Bom Senso e o senso comum de que 7x1
foi pouco!
O filme “Repórteres de Guerra”, dirigido por Steven Silver, é baseado no livro “The Bang Bang Club”, escrito por João Silva e Greg Marinovich, que, ao lado de Kevin Carter e Ken Osterbroek, são retratados no longa. “Repórteres de Guerra”, que pode ser encontrado no YouTube, conta a história dos quatro fotojornalistas que cobrem a guerra civil na África do Sul, no início dos anos 90, à época sob o regime do Apartheid.
As personagens principais têm o “simples” trabalho de fotografar os conflitos e vender as fotos para um determinado jornal local. Mas é realmente possível fotografar alguém morrendo ou que acabara de morrer e ficar indiferente a tal fato? Os conflitos internos pelos quais passam os fotógrafos, principalmente Kevin e Greg, são retratados na história, que tem a duração aproximada de 110 minutos.
"Tocha Humana", foto que rendeu a Greg o Pulitzer de 1991
À primeira impressão, Kevin Carter,
interpretado por Taylor Kitsch, gosta de sair, se divertir com os amigos e aparenta
ser bem feliz. Mas a partir do momento em que o seu vício em drogas o prejudica
no trabalho, fica claro que ele precisa de ajuda. O vício em entorpecentes pode
ser considerado uma válvula de escape de Carter, que, apesar de acostumado a
fotografar “cenas fortes”, não se acostumou a conviver com tais memórias.
A triste situação do fotojornalista é
explícita a todos logo após Kevin ganhar o Prêmio Pulitzer. Sua foto,
intitulada “O Abutre”, em que a ave observa uma criança sudanesa prestes a
morrer de fome, o trouxe reconhecimento mundial. Mas também lhe trouxe tristeza,
precedida por diversas dúvidas.
Cheio de dívidas, sem dinheiro algum, sozinho
no carro e fazendo uma série de questionamentos sobre sua vida, Carter se
suicida. Em sua carta de despedida, relata o desejo de ter a sorte de se encontrar
com o amigo Ken Osterbroek, morto há pouco tempo em um dos conflitos da África
do Sul.
Além da questão racial, citada por um
personagem, que acusa os fotojornalistas (brancos) de ganharem dinheiro fotografando
o sangue dos negros, a ética jornalística também é bastante questionada. Como
saber o momento certo de fotografar? Como saber o momento de parar? Até que
ponto o fotógrafo deve continuar com seu trabalho “sujo”?
Essas e outras perguntas dificilmente serão respondidas.
Certo é que, enquanto não encontramos tais respostas, mais questionamentos do
tipo surgirão. Paralelamente, à medida em que as dúvidas vão surgindo, mais e
mais abutres seguem
se alimentando da carniça humana...
É
isso mesmo, amigo. O jogo é entre dois times e o grande interessado na partida
é uma terceira equipe. No dia anterior, o Leicester havia empatado com o
Manchester United e para ser campeão, precisava que o Tottenham não vencesse o
Chelsea na segunda. Essa é a famosa ~~era dos pontos corridos~~. A fórmula que,
além de privilegiar os clubes com maior poder aquisitivo, faz com que a torcida
tenha que esperar 24 horas para soltar o grito de campeão da garganta.
Defensores dos pontos corridos dizem que o
sistema é mais justo e privilegia o time mais regular da competição, o que
aconteceu com os Foxes. Mas cá entre nós, as chances da equipe vencer a
competição novamente são mínimas, quase impossíveis. Entretanto, além de ter
derrotado diversos Golias nos pontos corridos, outros ingredientes abrilhantaram
ainda mais a campanha do clube na temporada 2015/2016. Confira:
Por esses e outros fatores, o título foi
comemorado não só pelos torcedores do Leicester, como pelos amantes do futebol
em todo canto do mundo. Por último, mas não menos importante, caso ainda não
tenha ficado explícito: pontos corridos: NÃO GOSTAMOS.
Há 20 anos, um acidente aéreo interrompia a
meteórica e promissora carreira de cinco jovens de Guarulhos, São Paulo. No dia
2 de março de 1996, os jovens Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec e os irmãos
Samuel e Sérgio Reoli, deixaram de apresentar a “music very good e porreta” dos
Mamonas Assassinas pelo país. A tragédia vitimou também o piloto e o copiloto
do avião, além do roadie e do segurança da banda.
O primeiro e único álbum do grupo chegou às
lojas em 23 de junho de 1995. Rapidamente o punk rock, com influências de
pagode, sertanejo, brega e outros estilos chegou aos quatro cantos do país e tornou
os jovens conhecidos nacionalmente. Intitulado “Mamonas Assassinas”, o disco vendeu
quase 3 milhões de cópias em menos de um ano.
Único álbum do grupo vendeu quase 3 milhões de cópias em menos de um ano
As músicas, cheias de duplo sentido e
palavrões, também vinham carregadas de críticas sociais, como podemos observar
em “1406” e “Chopis Centis”. Ou ainda em “Robocop Gay”, mais precisamente no
trecho “ontem, eu era católico, hoje, eu sou um gay” em que o grupo questiona a
relação entre a Igreja e a homossexualidade. Mas isso é assunto pra outra
hora...
Agora, o importante é entender o que os Mamonas
queriam dizer com “um paradoxo do pretérito imperfeito complexo com a teoria da
relatividade”. Primeiramente, levemos em consideração que o pretérito
imperfeito “exprime
ações que dão a ideia de não estarem concluídas no passado”. A teoria da relatividade,
segundo Einstein, afirma que tempo e espaço são relativos.
Ou seja, a curta carreira dos Mamonas não
acabou naquele 2 de março de 1996. Ainda hoje, o único disco da banda figura
entre os 10 mais vendidos no Brasil, além de ser o que mais vendeu em menor tempo
(recorde mundial). Músicos famosos fizeram referências à banda em suas letras.
Lenine, em “Todas Elas Juntas Num Só Ser” e Gabriel o Pensador, em “Festa da Música Tupiniquim” são dois exemplos. Clubes de futebol parodiam “Pelados em
Santos” e até escolas de samba já homenagearam os jovens de Guarulhos,
levando-os como tema central à avenida.
Por essas e outras, Mamonas, “vocês não sabem
como parte um coração” não poder vê-los mais aos domingos no Faustão. “Vocês
não sabem como é frustrante” saber que poderiam e iriam mais adiante. “Vocês
não sabem como eu fico chateado” saber que o que nos resta agora é apenas um
legado...
Após
quase uma década, a Pepsi trouxe de volta os famosos limões falantes, que não
apareciam em um comercial na televisão desde 2007. Na nova campanha
publicitária, criada pela agência AlmapBBDO, Bruno Mazzeo e Lúcio Mauro Filho
são os dubladores dos limões novamente. A propaganda, veiculada na TV e na
internet, questiona “um
mundo cheio de chatices, cheio de ‘não pode isso, não pode aquilo’”.
Talvez a Pepsi tenha razão. O racismo, o machismo e a homofobia
deixaram o “mundo chato”. Talvez o negro, a mulher e o gay devessem continuar
na senzala, na cozinha e no armário, respectivamente; para continuarmos vivendo
em paz (afinal, antes do conhecimento desses termos, o mundo era perfeito).
Talvez o “mimimi” desses grupos não tenha sentido. Talvez. Se estivéssemos em
1812. Talvez...
Arte do chargista Matheus Ribs
Apesar de estarmos em 2016 e essas minorias terem cada vez mais
voz, não apenas na internet, o
preconceito ainda continua presente na publicidade. Seja ele de raça, gênero, opção sexual ou qualquer outro. O
machismo, quesito indispensável em propagandas de cerveja, é veiculado em
praticamente 100% das campanhas publicitárias de tal produto. Do “Vai, Verão” e
“Vem, Verão”, da Itaipava ao “Esqueci o ‘não’ em casa”, da Skol. Todas elas têm
como foco a objetificação da mulher.
A Pepsi, com “o mundo anda chato”, desmerece a luta de negros,
mulheres, gays e outras minorias, que, diariamente, combatem o preconceito. A
marca não entende que “agora, imagina se a gente fosse ligar para o que falam
da gente!?” afeta todos esses grupos que nunca tiveram voz em nossa sociedade e
os força a acreditar que devam aceitar calados tudo o que lhes é dito.
Em um mundo de Gentilis e Aquele Que Não Deve Ser Nomeados, pouca
coisa tem nos surpreendido hoje em dia, é verdade. A maioria é que se
surpreende ao fazer um comentário racista, machista ou homofóbico e logo ser
retrucado, graças ao “mundo chato”. Mundo esse, que não anda chato. Ao
contrário da publicidade, que anda e sempre andou preconceituosa.
“Há sete anos, vegeto no
depósito dos rejeitados, desde que me encontraram dentro de um saco plástico”:Assim como muitas crianças que vivem em
abrigos, Eduardo também foi encontrado em um saco plástico.
“Mesmo sem alimentar a
balística com FAMAS, fui condenado aos traumas do abandono de incapaz”: segundo a Wikipédia,
“balística é a ciência que estuda o movimento dos projéteis, especialmente das
armas de fogo, seu comportamento no interior destas e também no seu exterior,
como a trajetória, impacto, marcas, explosão, etc., utilizando-se de técnicas
próprias e conhecimentos de física e química, além de servir a outras
ciências”. FAMAS é um rifle francês e significa “Fuzil de Assalto da
Manufatura de Armas de Santa Ettiene”. Mesmo não tendo relação
alguma com armas, Eduardo foi mais uma vítima do artigo
133 do Código Penal.
“Casal de boy não quer tá no
restaurante jantando, com polícia colando, achando que é sequestro relâmpago.
De ir no shopping explicar pro segurança seguindo: ‘o menino negro tá comigo,
não é bandido, é meu filho’”: você se lembra do caso do menino
de 7 anos vítima de racismo numa concessionária no
Rio de Janeiro, não se lembra?! Após o episódio, os pais do garoto criaram a
página “Preconceito racial não é mal-entendido” no Facebook.
Página criada pelos pais do garoto logo após o "mal-entendido"
“No máximo eu consigo ser
apadrinhado por um doador que dá pra ONG alguns centavos. Pro bebê loiro é
adoção, direito à infância. Pro neguinho, colaborador mensal à distância”: muitas
das crianças que vivem em abrigos são apadrinhadas, recebendo doações mensais.
Na maioria das vezes, são crianças que possuem poucas chances de serem
adotadas.
“O meu perfil afro só é da
hora pra elite em companhia da Madonna ou do Brad Pitt”:
dois famosos, que estão sempre em evidência, com filhos adotivos negros.
“Pelo ECA, meu martírio
tinha que ser temporário, não a porra de um vitalício calvário”: no
primeiro verso da segunda estrofe, Eduardo trata do artigo 4º do Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), que diz: “É dever da família, da comunidade, da
sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a
efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação,
ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”. Apesar de gozar
dos direitos do ECA, o sofrimento de Eduardo parece nunca ter fim, é vitalício.
“Em média, em um ano, um
vira lata deixa o instituto de zoonoses e ganha uma casa. Sociedade se preocupa
com bem estar de cachorro, mas que se foda se o preterido aqui tá vivo ou
morto. Que se foda se ele tá nutrido, sente frio, se tá fazendo curso preparatório
pra fuzil”: P - E - S - A -
D – O!!!
“Cansei de ver as Pajero se
afastando do jardim, levando aqueles que chegaram bem depois de mim”: nessa
parte, fica explícito que, quem adota, em sua maioria, tem
uma ótima condição financeira. Provavelmente branco
adotando criança branca, que, mesmo chegando ao abrigo bem depois de Eduardo, é
adotada pelo simples fato de ser branca.
Dados de março de 2013 mostram a ótima condição financeira de quem adota
“É foda só saber o que é higiene,
carinho e sorriso quando um promotor de justiça visita o abrigo. Pro alvará de
funcionamento não ser cassado, nessa data, dão banho, perfumam e até dão afago”:
Eduardo alerta sobre as más condições em que muitas crianças vivem nos abrigos.
“Sou candidato a tá na
cracolândia com a pele marcada pelo selo de qualidade da Fundação Casa. Quem
não recebe sobrenome no RG, ganha artigos 121 no DVC”:
sem o apoio e o sobrenome da família (biológica ou adotiva) no RG, sem qualquer
expectativa de vida, há uma grande possibilidade de Eduardo entrar para o mundo
do crime. O jovem pode cumprir pena na Fundação Casa até os 18 anos e após, ganhar
artigos 121 (matar alguém) no DVC (Divisão de Vigilância e Captura).
“A mina que, depois de
gozar, cê mete o pé no rabo, pode carregar no ventre o próximo desamparado”:
...
“Eu me sinto um produto
descartável dispensado no depósito dos rejeitados. Esperando alguém pra chamar
de pai, esperando alguém pra chamar de mãe”: só o refrão já
bastaria pra entender a mensagem que Eduardo quer passar, mas ele vai além. A
cada estrofe, impressiona e emociona ainda mais o ouvinte.
Apesar
de todos os versos e os casos citados, muitos acreditam na ideia de que não
existe racismo no Brasil. O próprio Senado Federal, com o texto “Racismo
na adoção é mito nacional”, é um exemplo de como querem diminuir
a luta contra o preconceito racial no país. É, Eduardo tem razão: “O homem
estragou tudo...”
Assista
ao clipe de “Depósito dos rejeitados”, lançado nesta quinta (5).