quarta-feira, 29 de julho de 2015

Para que ou para quem serve um Pan

Encerrados no último dia 26, os Jogos Pan-Americanos de 2015, realizados na cidade de Toronto, no Canadá, foram duramente criticados pela revista Veja em recente artigo. Alexandre Salvador é infeliz na sua colocação ao desmerecer os 590 atletas brasileiros utilizando-se do argumento de que alguns países (Brasil, inclusive) não enviaram seus principais nomes para competição.

O autor, porém, se esquece dos recordes que poderiam ser (e foram) quebrados em Toronto; assim como menospreza as histórias de luta e superação de nossos competidores citados no texto da Rede Record, detentora dos direitos de transmissão dos Jogos, como resposta à revista.

Respondendo à Veja, o Pan serve para incentivar às crianças e aos adolescentes do nosso país, que sem perspectiva alguma de futuro, vêem no esporte uma chance para mudar de vida. O Pan serve para recompensar os atletas brasileiros, que, sem quaisquer incentivo ou patrocínio do Comitê Olímpico do Brasil (COB), conseguiram chegar à competição, muitas vezes gastando o próprio dinheiro. O Pan serve para premiar nossos competidores, que tiveram uma infância difícil e tendo o esporte como seu salvador, levaram a bandeira verde e amarela ao lugar mais alto do pódio em Toronto.

O Pan serve para o nadador Thiago Pereira, que se tornou o maior medalhista da história dos Jogos Pan-Americanos, com 23 medalhas; para Etiene Medeiros, que conquistou o primeiro ouro da história da natação feminina; para Tiago Camilo, judoca tricampeão pan-americano; para Yane Marques, do pentatlo moderno, bicampeã pan-americana; para Marcel Stürmer, tetracampeão pan-americano na patinação artística

O Pan serve para Ana Sátila, ouro no C1 da canoagem, o primeiro da história da modalidade feminina no Brasil; para amigos e familiares desses e de todos os quase 600 atletas que vibraram ao vê-los emocionados com a medalha no peito; para milhares de brasileiros que se orgulharam ao ouvir o hino nacional sendo tocado e cantado com louvor pelos nossos competidores no alto do pódio.

O Pan serve para que tenhamos cada vez mais Thiagos, Etienes e Yanes no noticiário esportivo e menos Eduardos no noticiário policial. Quanto à Veja, sigamos tentando descobrir para que serve (ou desserve) tal revista.



Isaquias Queiroz, dois ouros e uma prata no Pan, após a perda de um rim e sequestro

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Lições aprendidas com a violência da PM no Paraná

A repressão do governador Beto Richa e a Polícia Militar do Paraná aos professores contrários ao projeto de lei que altera a previdência estadual, nos deu uma aula com exemplos concretos que não vemos na escola.

Aula de Matemática:
- 200 feridos por balas de borracha, bombas de gás lacrimogênio, sprays de pimenta e jatos d’água.
- 17 policiais presos por recusa a participar do cerco aos professores.

Aula de História:
- Em 30 de agosto de 1988, professores em greve foram recebidos pela cavalaria da polícia militar, cães e bombas de efeito moral. O hoje senador, Alvaro Dias (PDSB), era o governador do Paraná. Até então, era a pior repressão já vivida no estado.

Aula de Química:
- O gás lacrimogênio, do latim lacrima, trata-se de um grupo de compostos de propriedades, como seu próprio nome sugere, capazes de irritar a pele e tecidos sensíveis, como os olhos. Quimicamente, o gás CS, abreviatura para clorobenzilideno malononitrilo, é um exemplo.
- De custo mais baixo, o spray de pimenta está entre os mais populares. Outros compostos também podem ser utilizados para esse fim, como o cloro-acetona e o bromo-acetona.

Aula de Português:
- Confronto: ato ou efeito de confrontar, comparar, cotejar, confrontação, comparação.
- Massacre: ação ou efeito de massacrar. Carnificina, chacina, matança. Execução desajeitada, insegura.

Professores acostumados a ensinar foram ensinados a se acostumar com a repressão policial que ocorre frequentemente em manifestações por todo o Brasil. De norte a sul, de leste a oeste, a polícia usa de força excessiva para coagir os que lutam por seus direitos.


Com exceção dos 17 policiais que se recusaram a participar do cerco aos manifestantes, o restante dos militares merece nota 0 por agredir aqueles que lhes ensinaram o caminho correto para tirar nota 10 na escola e principalmente na vida.



Foto: Paulo Lisboa                                                                           

terça-feira, 7 de abril de 2015

Ser jornalista, ser “jornalista” e ser humano

Hoje, 7 de abril, é comemorado o Dia do Jornalista. Instituída pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa), a data homenageia o médico e jornalista Líbero Badaró. Vindo da Itália em 1826, três anos mais tarde, fundou o periódico Observador Constitucional, no qual denunciava o abuso de poder do Império, à época de D. Pedro I. Badaró foi morto por inimigos políticos em São Paulo em 22 de novembro de 1830. O movimento popular gerado por sua morte levou à abdicação de D. Pedro I no dia 7 de abril de 1831. Um século depois, em 1931, 7 de abril foi instituído como o Dia do Jornalista.

Antes de mais nada, é preciso entender a diferença entre ser jornalista e ser “jornalista”. Ser jornalista não é considerar compreensível a atitude de justiceiros ao amarrarem um menor de idade em um poste. Isso é ser “jornalista”. Ainda mais quando sua fala, em rede nacional, provoca mais casos de “justiça com as próprias mãos” em todo o Brasil. Ou quando, decorrente de um boato na internet, uma mulher é linchada e morre após ser acusada de seqüestrar crianças para utilizá-las em ritual de magia negra.

Ser jornalista não é apresentar um programa de televisão de cueca. Isso é ser “jornalista”. Para um programa tão sensacionalista quanto o “Brasil Urgente”, que vive de explorar a desgraça alheia (inclusive com imagens de mortos como se fossem lixo), aparecer de cueca em rede nacional é mero detalhe. Acusar sem provas e distorcer os fatos afim de ter audiência é o objetivo de Datena e sua trupe, que já conquistou seu espaço na televisão brasileira há anos.

Ao afirmar que “o homem é o lobo do homem”, Thomas Hobbes nos propõe uma reflexão: sendo o jornalista um formador de opinião, ele deve expor o seu pensamento em um veículo de comunicação, mesmo que esse gere conseqüências graves como os casos de “justiça com as próprias mãos” ocorridos em 2014?


Sabendo que temos desejos e necessidades semelhantes e que é natural o conflito entre nós, o jornalista deve se lembrar que mais vale uma noite bem dormida do que uma noite com insônia pensando em como explorar a desgraça alheia no dia seguinte e atingir a liderança na TV.




Foto: Reprodução

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Não, Eduardo. Amanhã não será melhor...

Eduardo de Jesus Ferreira. Dez anos de idade. Negro. Morador do Complexo do Alemão. Apenas mais um a entrar na estatística. Apenas mais uma vítima da PM covarde. Apenas mais uma vítima do sistema. Apenas mais uma criança que tem seus sonhos interrompidos graças à repressão policial que ocorre diariamente nas favelas.

Nesta quinta feira, 2, Eduardo foi brutalmente assassinado por um policial militar do batalhão de choque da PM. O garoto foi baleado na cabeça na porta de sua casa e morreu imediatamente.

Eduardo não é o primeiro e nem será o último a ser assassinado na favela. Frequentemente (quando a mídia julga necessário), se tem notícia de que a Polícia matou inocentes (em sua maioria negros e jovens) apenas e unicamente pelo fato de serem moradores da favela. Quem não se lembra do caso de Alan de Souza Lima? O jovem de 15 anos teve sua morte filmada pelo próprio celular na Favela da Palmeirinha.

Quantos Eduardos e Alans precisam ser mortos diariamente para deixarem de ser apenas estatísticas? Quantos Eduardos e Alans precisam ser mortos diariamente para virarem notícias? Quantos Eduardos e Alans precisam ser mortos diariamente para discutirmos a desmilitarização da Polícia? Dia após dia, nossa PM se mostra racista e preconceituosa e ninguém se importa, pois essas mortes já se tornaram comuns aos nossos olhos. A morte do negro na favela deixou de ser notícia e passou a ser fato.

Segundo sua mãe, Terezinha, Eduardo sonhava em ser bombeiro e ajudar o próximo. Ironicamente morreu vítima de quem deveria sempre nos estender a mão. Triste pensar que, na dúvida entre atirar ou não no negro, a Polícia sempre opta pela primeira opção. Lamentável ver que nosso País só anda para trás, vide a PEC que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Impossível sonhar com um futuro melhor diante de tanta injustiça e covardia.

Vá em paz, Eduardo. Vá iluminar aqueles que direta ou indiretamente são o culpado de sua partida. Peça muita luz e paz à caminhada desses, pois são os que mais precisam. Por aqui, continuaremos esperando que amanhã seja melhor. Prometo. Mas não hoje, Eduardo. Amanhã, infelizmente não será melhor.



Imagem: Larissa Campos